Family Talks
Infância,  Mundo Digital

Educar para a beleza: perguntamos a um poeta como se prepara a sensibilidade de uma criança

Date Published

Educar para a beleza: perguntamos a um poeta como se prepara a sensibilidade de uma criança

Este é um conteúdo original da Revista Family Talks 2º Edição — Baixe a revista completa aqui.

Não se duvida, hoje, da politização da vida inteira. Por isso a ninguém surpreenderá que até algo como a beleza venha a padecer, que se dobre sob o peso de convicções a respeito deste ou daquele tema do momento e se converta, para uns, em instrumento de resgate civilizatório e, para outros, em forma de libertar-se precisamente deste mesmo conjunto de valores. Sofrem a objetividade, a beleza mesma; sofre o próprio homem, aleijado da própria grandeza.

No âmbito familiar, no âmbito particular da educação dos filhos, há também os enfermiços: o senso das proporções, a natureza das coisas, a realidade da própria criança, tudo isso padece. Com efeito, se se almeja tratar da educação dos pequenos para compreender a beleza do mundo – das que ela recebe da natureza e daquelas que o homem produz –, é preciso olhar primeiro para ela. Educar é conduzir, não esmagar. E, quando se olha para a criança, soará injustificada e aterradora essa difundida inclinação, em muitos meios e por vezes com boníssimas intenções, a lançar sobre os sentidos dos filhos todo o peso estético de uma civilização milenar, salpicada por gênios e cravejada de mestres. O peso do coro de Bach sobre uma criança não é o do céu, mas de algo que ela ainda – e toda a educação de uma criança se alicerça nesse ainda – não consegue assimilar. Seu olhar e seu coração, afinal, têm antes o molde da bolha do sabão, da lâmina da grama e do inseto que nele se encaixam.

Não se trata de filisteísmo. Tampouco da posição de quem deseja fazer o jogo da destruição das tradições. Educar a sensibilidade é conduzir a sensibilidade, é prepará-la. E o educador deve primeiro preparar o olhar da criança para as flores da primavera para que, um dia, seja ela capaz de assombrar-se ante a Sagração da Primavera.

E essa, sim, é uma grande notícia, ao menos àqueles pais para os quais a educação da criança é uma finalidade em si, mais do que um instrumento de afirmação político-ideológica ou uma fonte de renda digital. Porque o que se exige, ao menos na primeira infância, é apenas que a criança possa abrir os olhos ao mundo, lograr uns tempos de ócio sobre a grama, uns instantes sob uma brisa vespertina, o toque da água de uma poça. Ali ela descobrirá que o ritmo do mundo é precisamente o seu; descobrirá o mistério das coisas, e a descoberta do mistério das coisas é precisamente a luz da beleza que os adultos esquecem e, modéstia às favas, acaba por apenas permanecer nos poetas, e pintores, e músicos. Por outro lado, horas intensas de submissão aos decassílabos de um Camões, sem a experiência da ternura de um sorriso materno ou do que significa na prática o amor, farão pouco, muito pouco – ou, quiçá, farão muito… pelo outro lado: levará a criança a dar razão, um dia, ao primeiro que disser que tudo isso não vale a pena, que a beleza das grandes manifestações artísticas é coisa de poucos, de alguns bem-pensantes que nada têm a dizer ao homem e a mulher comuns.

A educação para a beleza é, sobretudo para os pequenos mas não só, um plano inclinado. E a boa notícia é que percorrer esse plano não exige senão descobrir com olhos novos o universo inteiro, o qual – devemos reconhecer – foi feito para as crianças e tem o ritmo, as cores, os odores e sons que tanto lhes despertam. Essa é a fórmula do maravilhamento que alargará o coração dos meninos e meninas; é a fórmula que lhes revelará que há algo grande além de si. E, quando chegar a hora dos coros e sinfonias, das perspectivas e redondilhas, elas descobrirão maravilhadas que o ser humano pode ser magnânimo o suficiente para também criar – ou melhor: revelar – a beleza em obras que, por sua vez, recordam a grandeza a que se veem chamados todo homem e toda mulher.

Hugo Langone é poeta, ensaísta e editor, cofundador da editora Hoje, em Casa.