Fórum Family Talks aborda apoio público ao cuidado
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De quem é o papel de cuidar das pessoas? O estado e a sociedade devem ter alguma responsabilidade com o cuidado, ou não? Cada família tem que buscar recursos e procurar ser autossuficiente?
Esses foram os principais pontos debatidos no último dia do Fórum Family Talks, evento gratuito que debateu o papel das famílias, das empresas e dos poderes públicos de modo a oferecer insights para que a sociedade brasileira possa se reorganizar em suas diferentes esferas em torno do cuidado com seus cidadãos (veja mais sobre o dia 01 e dia 02 do evento).
Depois de dois dias produtivos, com discussões de alto nível moderadas pelo especialista em Políticas Públicas para a Família pela Universidade Internacional da Catalunha e fundador e diretor-executivo do Family Talks, Rodolfo Canônico, o Fórum chega ao fim debatendo, no último dia, a necessidade de apoio público para o cuidado.
Foram convidados, para o terceiro painel, o professor da USP e fundador do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), Marcos Kisil, o cofundador e diretor presidente do Grupo Tellus, Germano Guimarães, o diretor pedagógico do Centro Educacional Assistencial Profissionalizante (CEAP), Paulo Neiva, e a socióloga pela Universidade de Berlim, Assessora Especial na Prefeitura de São Paulo, Karina Tollara d’Alkimin.
De quem é a responsabilidade com o cuidado?
Para Kisil, a responsabilidade com o cuidado das pessoas está distribuída, obrigatoriamente, entre o governo e a sociedade, como dois elementos sob os quais o desenvolvimento deve caminhar.
“Hoje, é praticamente impossível se falar em qualquer área de interesse comum, de interesse da população, que não tenha uma ONG fazendo o seu trabalho de advocacia pela causa, ou prestando um serviço que o estado não está oferecendo. Então, é praticamente impossível hoje imaginar que a sociedade civil está parada. Ao contrário, ela é bastante atuante”, afirma Marcos Kisil.
O diretor presidente do Grupo Tellus, Germano Guimarães, concorda com Marcos Kisil e reforça que “nós só vamos conseguir nos desenvolver se todas as três instituições – família, sociedade civil e organizada, e governos -, atuarem em conjunto, mas partindo do pressuposto de que nós temos consenso de quais são as prioridades e desafios da sociedade”. Para ele, precisamos deixar de pensar que ou a responsabilidade do cuidado é das famílias, ou é do governo.
“Nós estamos vendo que a sociedade civil tem desempenhado um papel incrível, inclusive em apoiar a formulação de políticas públicas. Então, acredito que o desafio hoje não é do ‘ou’, mas sim do ‘e’, especialmente porque a sociedade civil está cada vez mais organizada, mais ativa e proativa, atuando com qualificação e competência em causas onde o estado não tem conseguido chegar”, considera Guimarães.
Na ocasião, o diretor pedagógico do Centro Educacional Assistencial Profissionalizante (CEAP), Paulo Neiva, foi convidado a compartilhar o trabalho que o Centro desenvolve na ponta com famílias vulneráveis.
“Nossa atuação tem uma ordem de prioridade que é focada em ações com os pais, com os professores e com os alunos. Nós acreditamos que, se nós conseguirmos uma boa formação para os pais, grande parte dos nossos alunos também terá uma boa formação”, acredita.
Trabalho conjunto
O diretor-executivo do Family Talks, ao reforçar a importância de se ter uma ação do estado e da sociedade dentro de uma lógica de complementação, lembra a existência de uma hierarquia de responsabilidades, que já está prevista na Constituição Federal por meio do princípio da subsidiariedade.
Sobre o assunto, Marcos Kisil considera que as parcerias entre o governo e a sociedade, são quase obrigatórias, mas devido a problemas culturais e estruturais, elas não acontecem como deveriam.
“O estado tem esse poder multiplicador que a sociedade civil não tem. A sociedade civil tem essa capacidade de fazer pesquisa e desenvolvimento e portanto correr riscos, que o estado tem medo. Então, o somatório poderia ser extremamente edificante para a nossa sociedade”, disse.
E como firmar parcerias?
De acordo com o diretor presidente do Grupo Tellus, existem diversos instrumentos de parceirização disponíveis para a estratégia de cooperação do governo com o terceiro setor e o setor privado. Para ele, é de fundamental importância a utilização desses instrumentos entre o estado com a sociedade civil, o que certamente vai estender a atuação do estado na área de políticas públicas podendo se obterem resultados mais efetivos.
“Esse é um modelo de sucesso. É o que nós buscamos no Tellus ao prototipar e inovar, por meio do designer, soluções para essas experiências. A partir daí, esperamos inspirar o poder público a investir nessas soluções e levá-las para uma maior escala”, disse Germano Guimarães.
“A sociedade precisa entender que os desafios públicos do nosso bairro não são única e exclusivamente responsabilidade do estado. Para que nós tenhamos um desenvolvimento consistente de longo prazo, precisamos nos apropriar do desenvolvimento. Para isso, a parceria é fundamental”, conclui.
Iniciativas e legados
Durante a pandemia, o Instituto Tellus empreendeu esforços para desenvolver e implementar soluções para atuar na contenção da Covid-19 e na mitigação dos seus impactos.
“Nós criamos o programa Covid Zero, partimos do princípio de que nenhuma perda humana é aceitável. Também desenvolvemos estratégias de distribuição de cestas básicas no estado de São Paulo”, conta.
“Quando o poder público também convida a sociedade para participar, a sociedade reage, se mobiliza. Foi um grande aprendizado. Esperamos que no pós-pandemia, a gente tenha isso como algo mais rotineiro, que foi a parceria da sociedade civil junto ao poder público para enfrentar os desafios sociais”, completa Germano Guimarães.
Para Neiva, o trabalho desenvolvido pelo CEAP possibilitou uma mudança social na região. “Nossa chave é a educação, além da educação. Quando a gente forma o aluno no trabalho, a repercussão a médio e longo prazos é muito grande”, afirma. “Eu convido as pessoas a conhecer o nosso projeto para entender como funciona o trabalho e testemunhar as transformações que a iniciativa possibilita. Isso ajuda a interpretar grandes projetos”, finaliza.
Participação especial
A programação também contou com a participação da socióloga pela Universidade de Berlim, assessora especial na Prefeitura de São Paulo, Karina Tollara d’Alkimin, que realizou uma apresentação sobre o case da cidade de São Paulo com políticas públicas voltadas para a primeira infância.
Em sua apresentação, a assessora disse que a criança, enquanto sujeito em desenvolvimento, requer cuidado e esse cuidado multidimensional precisa ser compartilhado entre família, sociedade e estado.
“O desenvolvimento ocorre em múltiplas dimensões e o cuidado com a criança precisa levar em conta todas elas. Então, do ponto de vista do poder público, e falando especificamente da administração municipal, significa o envolvimento de diferentes áreas na elaboração e na aplicação das políticas públicas voltadas para a primeira infância”, afirma Karina.
De acordo com a assessora, para assegurar o pleno desenvolvimento das crianças é preciso atender a todas as suas necessidades e, para que as políticas públicas setoriais sejam de fato eficientes e efetivas, elas precisam estar articuladas e integradas.
“É essa noção de intersetorialidade que tem orientado a política municipal da primeira infância em São Paulo. E um dos grandes marcos da nossa Política foi a elaboração do Plano Municipal pela Primeira Infância, que foi construído num processo participativo. Por causa dele também, nós criamos uma estrutura de governança dentro da prefeitura que é o coração que tem movido nossas ações nesses últimos anos”, reforça.
Saiba mais sobre os outros dias de evento:
Primeiro dia – Painel “Experiência com os filhos e a importância ao cuidar”.
Segundo dia – Painel “A importância do equilíbrio trabalho-família”.
