Pesquisa inédita de Family Talks revela que 72% dos brasileiros apoiam regulação do uso de redes sociais por menores de 16 anos
Date Published

Uma pesquisa inédita realizada por Family Talks em parceria com a consultoria Market Analysis revela que a maioria dos brasileiros defende medidas para restringir o acesso de crianças e adolescentes às redes sociais. O levantamento, conduzido em janeiro de 2026 com 1.011 entrevistados de todas as regiões do país e de diferentes classes socioeconômicas, mostra que 72% da população apoia a implementação, no Brasil, de uma legislação semelhante à adotada recentemente na Austrália — tema que ganha fôlego no país com o protocolo do Projeto de Lei 1827/2026, que prevê justamente restrições ao acesso de menores de 16 anos às plataformas digitais.
Um dos principais achados do estudo é o caráter amplo e transversal desse apoio. A defesa da regulação aparece de forma consistente entre homens e mulheres, em todas as faixas etárias, entre pessoas com e sem filhos e entre diferentes perfis de uso digital. O respaldo se conecta diretamente à percepção de danos: para 58,8% dos entrevistados, as redes sociais prejudicam mais do que beneficiam crianças e adolescentes — e, entre esse grupo, o apoio à regulação é ainda mais expressivo.
Segundo Rodolfo Canônico, diretor-executivo da Family Talks, os dados revelam uma sociedade que percebe os limites do esforço individual diante do problema. “As famílias reconhecem uma certa impotência diante das big techs, uma assimetria de forças, e não sabem o que fazer a respeito. Na falta de soluções melhores apresentadas pelas empresas, pela sociedade e pelo Estado, apoiam maciçamente a proibição para essa faixa etária — um caminho que talvez precise ser testado no Brasil”, avalia.
A pesquisa também lança luz sobre um aspecto central do debate público: a responsabilidade pelos danos causados às crianças e adolescentes usuários das redes. 61,2% dos entrevistados atribuem majoritariamente aos pais o papel de minimizar os riscos das redes sociais na vida dos filhos — o que, à primeira vista, poderia sugerir resistência à intervenção estatal. Na prática, contudo, ocorre o oposto: mesmo atribuindo centralidade à família, os brasileiros mantêm apoio massivo à regulação.
Esse paradoxo é explicada por Fabián Echegaray, diretor da Market Analysis. “Há uma aparente contradição nos dados. De um lado, existe o consenso de que a responsabilidade por manter crianças e adolescentes seguros na internet é principalmente dos pais, como se fosse um direito e uma obrigação exclusiva da família manter o domínio sobre essa situação, evitando qualquer intervenção externa. De outro, reconhece-se que as famílias têm poucos recursos para lidar sozinhas com um problema dessa dimensão”, explica.
Para Echegaray, os resultados também evidenciam a habilidade das big techs em se manterem à margem da atribuição de responsabilidade pelo problema. “As plataformas têm conseguido escapar dessa atribuição, o que mostra o tamanho do desafio de colocá-las como principais responsáveis e, a partir disso, mudar o jogo. Ainda assim, ao apoiarem a regulamentação, as famílias deixam claro que não compram a ideia de que a medida representaria um ataque à liberdade de expressão”, afirma.
Os achados da pesquisa situam o Brasil em um movimento internacional mais amplo. Na Austrália, cerca de 70% dos adultos apoiam a proibição do uso de redes sociais por menores de 16 anos. Em nível global, levantamento da Ipsos realizado em 2025 em 30 países mostra que, em média, 71% dos entrevistados defendem restrições para crianças abaixo de 14 anos. Na Europa, França, Espanha e Portugal debatem ou já implementam medidas semelhantes, enquanto nos Estados Unidos o debate combina exigências de consentimento parental com crescentes preocupações sobre saúde mental e segurança on-line.
