Contra a poluição virtual: combater a influência da pornografia em adolescentes exige presença (e uma boa dose de realismo)

Este é um conteúdo original da Revista Family Talks 2º Edição — Baixe a revista completa aqui.
A imensa maioria dos meninos — e, muito provavelmente, também das meninas — terá algum tipo de contato com material sexual durante a adolescência. Eis uma dura realidade que mães, pais e responsáveis resistem a aceitar. Ainda que bem-intencionada, essa recusa costuma colocar em risco a segurança e o desenvolvimento dos pequenos. Não se trata de minimizar o problema, mas de enfrentá-lo com realismo: uma família que pretenda evitar a todo custo o acesso de um filho a esse tipo de conteúdo é como um morador de São Paulo que espera que o filho não respire ar poluído. Descartada a alternativa impensável de trancafiar o garoto em casa, a estratégia precisa ser mitigar os efeitos deletérios da poluição, uma vez que é impossível evitá-la por completo em um mundo no qual já não se vive sem internet.
Alguns dados ilustram a dimensão do desafio: no Brasil, quase 10% dos jovens entre 9 e 17 anos relataram ter visto conteúdos sexuais online no último ano — muitas vezes de forma acidental — e 16% receberam mensagens com esse tipo de material. No exterior, os índices são ainda mais altos: nos Estados Unidos, mais de 73% dos adolescentes entre 13 e 17 anos já tiveram contato com esse tipo de conteúdo, e mais da metade antes dos 13 anos. Considerando-se que essas estatísticas são baseadas em autodeclaração, é muito provável que estejam subestimadas.
A experiência cotidiana confirma os números. Tendo nascido nos anos 1980, tive o privilégio de uma adolescência offline, na qual o acesso a esse tipo de material dependia de revistas ou vídeos em mídias físicas. A chegada da internet eliminou as barreiras, impulsionada pela pirataria e pela criação de plataformas gratuitas de compartilhamento de vídeos, como o YouTube. Os smartphones, enfim, nos trouxeram ao cenário atual: temos em mãos uma via irrestrita a todo o conteúdo online do mundo — do mais banal ao mais repulsivo —, bem como a seus mal-intencionados criadores e perpetradores.
Vale dizer que, quer isso se deva à ingenuidade ou ao resultado da normalização cultural do erotismo explícito, ainda há quem duvide de seus malefícios. Embora não haja consenso sobre causalidade, estudos recentes indicam nítida correlação entre o consumo precoce de imagens e vídeos sexuais e sintomas de depressão, ansiedade, solidão e baixa autoestima, além de culpa e estresse emocional decorrentes da percepção de perda de controle sobre o próprio comportamento. Também se observam efeitos sobre a autoimagem corporal, especialmente entre meninas, e distorções nas expectativas sobre sexo e relacionamentos, com impacto potencial na intimidade e na compreensão do consentimento.
Por tudo isso, o Family Talks insiste no valor insubstituível da ação coletiva — como se deu na aprovação do PL 2628, que, graças aos nossos esforços, garantiu a inclusão da exigência de sistemas de verificação etária confiáveis em sites de conteúdo adulto, apostas e bebidas alcoólicas. É como o trânsito: mesmo fazendo tudo certo, ainda assim posso ser envolvido em um acidente. Assim, um chamado à responsabilidade coletiva é necessário.
Ao abordar as relações entre o acesso precoce e as mazelas descritas, estudiosos do assunto ponderam que fatores como valores familiares, gênero, histórico de trauma e nível de supervisão parental influenciam fortemente os resultados. Se a ciência e a experiência descrevem a vastidão do problema, também apontam para a eficácia da solução: a supervisão parental é decisiva para proteger crianças e adolescentes dos efeitos nocivos da exposição sexual precoce. Pais e mães ainda podem fazer muito — e com ótimos resultados — desde que atuem com realismo.
Reforço: por mais atentos e cuidadosos que sejam os responsáveis, há tanto material disponível, em tantos canais e chegando a tanta gente, que é muito provável que seus filhos tenham algum nível de acesso. Para começar, portanto, é preciso superar a culpa e garantir que a educação oferecida em casa tenha muito mais influência do que qualquer conteúdo online. Em seguida, é necessário criar as proteções básicas: instalar filtros DNS nos roteadores para impedir o acesso a conteúdo adulto pelo wi-fi doméstico; adotar as recomendações dos melhores especialistas — smartphones apenas após os 14 anos, redes sociais depois dos 16. É amplamente comprovado que, nas redes, um adolescente chegará rapidamente a esse tipo de material; por isso, vale retardar o acesso até que tenha maturidade. Quanto ao uso de computadores pessoais, o ideal é permitir por tempo limitado, em ambiente comum da casa, conforme as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria. Isso é o básico — necessário, mas não suficiente.
Também é preciso que cada família repactue o lugar da internet dentro de casa, para que a navegação não substitua o tempo de convivência familiar. Celulares não podem ter lugar nas refeições nem nos momentos de descanso em comum. Além disso, o uso da internet precisa acontecer em locais determinados, para finalidades específicas e por tempo limitado. Importante: se pais e mães pretendem moderar o uso da internet por seus filhos, eles próprios terão de se submeter às mesmas regras. Uma delas é decisiva: nada de internet nos quartos. Acredite, todos se beneficiarão da retirada dos smartphones das cabeceiras.
Uma conversa franca sobre o assunto, o quanto antes, também é necessária. Afinal, o leitor pode adotar todas as medidas aqui sugeridas — e muitas outras —, mas a família do amiguinho da escola talvez não o faça. Conheço vários casos de crianças de 7 ou 8 anos que foram expostas a esse tipo de conteúdo dessa maneira. Nessa hora, é fundamental que a criança saiba o que fazer — e isso inclui contar para a mãe ou o pai. Assim, sem quebrar a confiança, os responsáveis poderão orientá-la, por um lado, e tomar as medidas cabíveis para evitar que o episódio se repita. Nesse sentido, o envolvimento de escolas, clubes e outros ambientes frequentados por crianças pode ser decisivo: quanto mais pessoas empenhadas em criar ambientes seguros, melhor.
Restrições, enfim, não bastam: o decisivo sempre será fomentar interesses saudáveis e diversos em crianças e adolescentes. Um jovem com um propósito claro tende a gastar menos tempo na internet; aquele que navega o tempo todo quer ser influenciador. Há tanta coisa interessante por aí — esportes, arte, ciência… será possível que nada desperte o interesse da garotada? Não acredito nisso. Poderíamos falar longamente sobre os problemas do atual sistema educacional e o motivo de ele raramente despertar curiosidade intelectual nas crianças, e isto seria uma outra conversa. Mães e pais, contudo, ainda precisam conhecer seus filhos a ponto de intuir suas inclinações, gostos e preferências, e assim orientarem seu desenvolvimento de maneira personalizada. Proteger crianças e adolescentes da sexualização precoce é tarefa que exige, sobretudo, presença — quiçá, mais do que vigilância. E nenhum filtro tecnológico substituirá o cuidado amoroso de uma família.
Por Rodolfo Canônico
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