Family Talks

Editorial: Para proteger crianças, é preciso cuidar de suas famílias

editorial.jpg

“Perdi a cabeça.” Foi assim que um pai, preso no Paraná, tentou explicar o vídeo em que chuta o rosto da própria filha de três anos, um viral nas redes sociais nas últimas semanas. Trata-se de um caso extremo que certamente não retrata a maioria das famílias brasileiras, mas que, ainda assim, ajuda a ilustrar uma realidade mais comum do que gostaríamos: muitos pais se descontrolam diante do comportamento dos filhos e não sabem agir de outro jeito.

A pesquisa Infinis-Quaest divulgada esta semana mede a distância entre o que almejamos e o que praticamos: embora defendam a conversa como melhor forma de educar, 62% dos brasileiros dizem já ter gritado com uma criança e 49% admitem já ter dado tapas.

Outro dado da pesquisa aponta que, diferente do vídeo viral, no qual o pai agressor foi interpelado por uma testemunha, mais de 60% afirma que não interviria se visse uma criança ser agredida. Nesse sentido, é importante ressaltar que o direito da família sobre a criança não é absoluto: ele está subordinado ao bem-estar de quem não pode se defender. Quando esse bem-estar é violado, a sociedade e o Estado têm o dever de agir.

Acreditamos, porém, que a família é insubstituível, e por isso merece mais apoio do que julgamento. É certo que boa parte das agressões relatados na pesquisa não nasce da falta de amor, mas de causas estruturais: cansaço, isolamento, ausência de informação e de rede de apoio. Cuidadores exaustos e sem recursos têm muito mais dificuldade de oferecer o ambiente seguro que desejam para os filhos.

Por essa razão, Family Talks insiste no apoio à parentalidade como política pública. Não para controlar as famílias, mas para dar a pais e mães, em larga escala, os recursos e o conhecimento hoje restritos a quem pode pagar por eles — alcançando, sobretudo, quem mais precisa. Proteger crianças, afinal, começa por cuidar de quem cuida delas.

Por Rodolfo Canônico

Gostou? Compartilhe

Últimas notícias