Family Talks

Editorial: A quem interessa expor o choro de uma criança?

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Além do popular “complexo de vira-latas”, Nelson Rodrigues cunhou uma segunda expressão sobre a mania nacional de inferiorizar-se diante do mundo, cuspindo na própria imagem: “Narciso às avessas”. Há virtude em rir de si mesmo, sobretudo nos maus dias, como o último domingo. Mas, nas redes, tudo ganha proporções desmedidas, e a autocomiseração nacional perde a graça quando os protagonistas são pequenos.

Após a eliminação do Brasil na Copa, multiplicaram-se vídeos de crianças chorando a queda da seleção: algumas queimando numa fogueira os álbuns de figurinhas, outras encharcando em lágrimas suas “amarelinhas”. Publicadas por adultos, as cenas dividiram a internet: uns acharam graça, outros criticaram o exemplo. A quem interessa filmar e exibir o choro de uma criança?

É natural querer partilhar a vida familiar. Mas a internet não é um álbum de família. Ao expor um menor, perde-se o controle sobre a imagem, que pode alimentar redes de pedofilia e virar matéria-prima para manipulação por inteligência artificial. Em cenário menos grave, sobra a chacota: o vídeo vira meme, e a criança, piada entre estranhos. Esquecemos que o pequeno de hoje será o adulto relembrado por desconhecidos, sem jamais ter escolhido estar ali. Não à toa, o “sharenting” é associado a prejuízos à autoestima e à saúde mental de crianças expostas por quem deveria protegê-las.

Proteger a infância na rede começa em casa, e as famílias não podem ficar sozinhas. O Family Talks apoia medidas públicas que garantam ao menor o direito à própria imagem e ofereçam aos pais formação sobre os perigos da internet — equilíbrio entre segurança e autonomia familiar.

Nas próximas eleições, que tal cobrar dos candidatos medidas que protejam as crianças nas redes e capacitem os responsáveis pelo cuidado? Eis uma partida que o Brasil não pode se dar o luxo de perder.

Por Rodolfo Canônico

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