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Depois da lei: Um ano sem celulares nas escolas transformou as salas de aula. O que realmente mudou?

Depois da lei: Um ano sem celulares nas escolas transformou as salas de aula. O que realmente mudou?

Este é um conteúdo original da Revista Family Talks 2º Edição — Baixe a revista completa aqui.

O primeiro dia letivo após a restrição legal ao uso de celulares nas escolas foi, para muitos, cercado de expectativas e incertezas. Houve quem acreditasse que a norma seria motivo de resistência intensa, protestos silenciosos ou boicotes por parte dos alunos. Em minha experiência, desde o princípio, a prática proporcionou uma oportunidade de ressignificar a vida escolar. 

Naturalmente, o maior impacto se deu entre os estudantes, acostumados à rotina com smartphones, e para que a mudança não se limitasse à proibição, criamos alternativas concretas de convivência. Jogos de tabuleiro voltaram aos corredores, dinâmicas coletivas ocuparam os intervalos, e itens que pareciam extintos – como câmeras analógicas e caça-palavras – ganharam espaço nas mochilas e mesas. O ambiente ganhou nova vida.

A nós, professores e gestores, não escapou o fato de que as aulas se tornaram menos fragmentadas pelas notificações e a participação dos alunos cresceu. O que parecia uma barreira, rapidamente foi ressignificado como oportunidade. O processo foi construído em conjunto, de forma acolhedora, e não apenas uma imposição legal.

Vale dizer que, em nossas escolas, o movimento para afastar os celulares das salas de aula é anterior à lei: ainda em 2023, certos de que o uso excessivo de telas estava comprometendo a atenção, o bem-estar e a qualidade do aprendizado e das interações, lançamos o projeto “Conecte-se com o que importa”. Quando a legislação foi aprovada, portanto, já estávamos em processo de adaptação. Por outro lado, somos um grupo com escolas em diferentes contextos, espalhadas por todo o Brasil, de modo que as iniciativas adotadas – antes e depois da lei – foram bastante diversas. 

A transição se apoiou em três pilares: primeiro, cuidamos da infraestrutura. Era preciso criar espaços seguros onde os estudantes pudessem deixar seus celulares ao entrar em sala: chamamos de colmeias. Algumas unidades optaram por armários coletivos; outras por delimitar locais específicos para contato com os responsáveis. Depois, veio a formação docente: preparamos os professores para conduzir aulas sem a dependência dos dispositivos digitais. O terceiro e talvez mais decisivo pilar foi o diálogo com as famílias, construído em reuniões e encontros pedagógicos para explicar o sentido da mudança. 

Enfrentamos resistências tanto por parte de alunos quanto de pais: em alguns casos, mensagens e ligações familiares foram usadas como justificativa para manter os aparelhos por perto. Episódios assim explicitaram como o imperativo de afastar os smartphones do aprendizado ultrapassa os muros da escola: exige uma reeducação coletiva, e a implementação da medida exigiu boa dose de escuta atenta, mediação paciente e, sobretudo, coerência.

Vencidos os receios iniciais, vieram as mudanças profundas, a começar pelo aumento das interações “olho no olho” e seus desafios inerentes: sem as telas como refúgio imediato, os alunos se viram obrigados a lidar com diferenças, divergências e conflitos de forma mais direta. Em outras palavras, a escola voltou a ser um espaço vivo, com todos os riscos e riquezas que isso implica. Essa convivência mais intensa exigiu dos estudantes novas formas de escuta e empatia — e também dos professores, que passaram a ocupar novamente o centro da experiência escolar. Com os olhos voltados para o educador e para os colegas, e não para uma tela, o vínculo entre professor e aluno se fortaleceu, devolvendo à sala de aula o seu papel de lugar de encontro e de aprendizagem compartilhada.

Tão certos estamos dos benefícios da restrição aos celulares quanto da máxima de que nenhuma lei se sustenta apenas dentro dos muros da escola: é indispensável que as novas práticas ecoem dentro das casas dos alunos. Por isso, defendemos que família e escola se reconheçam como extensões uma da outra. É em casa, afinal, que os novos hábitos se consolidam: com horários regulados, momentos sem telas e incentivo a atividades coletivas. 

Quando escola e família, pais e professores, caminham juntos, o impacto é mais profundo e duradouro. Sem essa sintonia, a regra toma ares de imposição arbitrária, sem nenhum respaldo na vida cotidiana: não somos obrigados a usar cintos de segurança por mero capricho, mas pelo bem individual e comum. O mesmo se dá com a proibição aos celulares em sala e, nesse sentido, a lei é também uma oportunidade cultural. 

Estamos diante de uma geração marcada pela pandemia, que encontrou nos eletrônicos um refúgio contra o desconforto do convívio direto. Retirar esse apoio artificial não é simples, mas abre espaço para algo essencial: o exercício da convivência real. A experiência dos últimos meses revelou uma dimensão mais ampla do papel da escola: mais do que ensinar conteúdos ou incorporar tecnologia, trata-se de formar cidadãos digitais conscientes, capazes de conviver com limites e de usar as telas de forma ética e equilibrada. Esse movimento, porém, só se consolida quando encontra continuidade em casa. A restrição aos celulares não é mero gesto disciplinar, mas um convite à co-responsabilidade entre escola e família — um esforço conjunto para reconstruir, na prática, o valor da presença e da atenção.

Gabriel Milaré é professor e gestor educacional do Grupo Salta Educação.

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