Editorial: A escala 6×1 e o tempo que não volta

A Câmara dos Deputados acaba de aprovar o fim da escala 6×1 no Brasil, proposta que agora segue para o Senado. O tema, que mobiliza o país há meses, torna-se enfim matéria concreta de decisão legislativa — e, com isso, exige de todos nós uma reflexão serena, para além dos extremos que costumam dominar o debate.
O Family Talks não está envolvido com o projeto, mas temos nossas considerações a fazer. Seria leviano ignorar que há questões econômicas complexas em jogo, e que os custos de uma mudança dessa magnitude não são desprezíveis. Esperamos que a tramitação no Senado e a eventual aplicação do projeto levem essas variáveis em conta, sobretudo no que diz respeito às pequenas e médias empresas que empregam a maior parte dos brasileiros e são parte essencial do tecido da sociedade civil.
Há, porém, elementos que o debate técnico tende a deixar de lado, e é justamente sobre isso que queremos falar: a cultura de valorização da família, traduzida dedicado aos que amamos. No Brasil, cerca de 3 a cada 10 adolescentes fazem menos de três refeições por semana com a família. Trata-se de uma trivialidade doméstica com consequências públicas: a ausência desses momentos compartilhados está associada a maior risco de consumo de drogas, de envolvimento com comportamentos de risco e de problemas de saúde mental. A mesa familiar, esse rito antigo e silencioso, é mais protetora do que imaginamos.
É evidente que muitos fatores concorrem para esse afastamento, e seria simplista atribuí-lo a uma única causa. Ainda assim, é igualmente evidente que longas jornadas de trabalho têm seu peso: pais que saem antes de os filhos acordarem e voltam depois que eles dormem não constroem vínculo por decreto. O tempo subtraído do convívio não volta, e suas consequências se acumulam ao longo de gerações.
É daí que nasce boa parte da força do movimento contra a escala 6×1. É evidente que o cidadão comum não quer destruir a economia nem fugir do trabalho. Quer, antes, recuperar o tempo que sente estar perdendo — o tempo de preparar o jantar, de acompanhar uma lição de casa, de simplesmente estar presente. Por trás da pauta trabalhista há um anseio mais profundo, que é o de proteger aquilo que dá sentido ao próprio trabalho.
Por isso, mais do que defender esta ou aquela fórmula legislativa, Family Talks defende a construção de uma cultura que valorize o tempo em família. Nenhuma lei, isoladamente, dá conta dessa tarefa. É preciso um ecossistema de apoio: jornadas compatíveis com a vida familiar, empresas que entendam o cuidado como parte da dignidade do trabalho, políticas públicas que fortaleçam os vínculos em vez de corroê-los.
Colocar os interesses das famílias acima do lucro imediato não é abrir mão da prosperidade — é garanti-la. Filhos que crescem amparados tornam-se adultos mais saudáveis, mais estáveis e, no fim das contas, mais produtivos. No longo prazo, uma sociedade que protege o tempo das suas famílias é também uma sociedade que prospera. Uma sociedade verdadeiramente sustentável.
Por Rodolfo Canônico
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