Family Talks

Editorial: Chile quer pagar por bebês. O Brasil deveria?

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Recém-empossado, o presidente chileno José Antonio Kast promete colocar em prática uma promessa de campanha: um bônus único de cerca de 2 milhões de pesos por bebê nascido — algo em torno de 12 mil reais, metade entregue à mãe, metade depositada em poupança para a criança. A medida ainda depende do Legislativo, mas reabre um debate que o Brasil terá de enfrentar.

As taxas de natalidade da América Latina, afinal, andam mais baixas do que nunca. O Chile viu seus nascimentos caírem mais de 30% na última década, e o Brasil segue o mesmo caminho: com a fecundidade em 1,57 filho por mulher, o IBGE projeta que a população começará a diminuir em 2041.

Bônus parecidos foram tentados em países como Hungria, Coreia do Sul, Rússia, Japão — com resultados pífios. Ocorre que, por trás da queda da natalidade, há uma miríade de fatores. Há boas notícias na conta, como a redução da gravidez na adolescência, mas a maioria é má: custos crescentes para criar filhos, penalização das mães no mercado, dissolução das comunidades que antes serviam de rede de apoio. Somam-se a isso mudanças culturais que abrangem desde a solidão endêmica até a perda de valor atribuído à vida familiar diante de outras experiências.

Ainda assim, pesquisas mostram que muitas famílias querem, sim, ter filhos, e não o fazem por medo das penalidades. Por isso, o Family Talks entende que a preocupação não deve ser fazer com que as pessoas queiram ter filhos, mas que aqueles que querem se sintam encorajados a tê-los. Um bônus isolado, ainda que generoso, não resolve. Há que se criar uma cultura, um ecossistema de apoio ao exercício do cuidado.

Junto com a poupança destinada às famílias que se iniciam, pode-se, por exemplo, criar creches com horários estendidos; conceder licenças parentais equânimes e auxiliar mães em sua reinserção profissional, com salário-maternidade justo para as autônomas. Não existe bala de prata. Há, porém, uma combinação de medidas que, no longo prazo, podem tornar um país acolhedor para as famílias que o sustentam.

Por Rodolfo Canônico

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