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Famílias sólidas são a melhor ‘vacina’ da saúde pública, diz epidemiologista de Harvard

Famílias sólidas são a melhor ‘vacina’ da saúde pública, diz epidemiologista de Harvard

Este é um conteúdo original da Revista Family Talks 2º Edição — Baixe a revista completa aqui.

Em conversa com Family Talks, o médico epidemiologista Miguel Ángel Martínez González defende que famílias sólidas são a maior aposta da saúde pública.

Há quase oitenta anos, ainda no preâmbulo de sua Constituição (1946), a Organização Mundial da Saúde definiu seu objeto de trabalho como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. Se é isto, afinal, a saúde pessoal à qual tanto se preza, por extensão também o é a saúde pública: em nossas complexas relações humanas, não queremos apenas escapar das grandes mazelas; queremos prosperidade. Para tanto, investimos na promoção da boa alimentação e exercícios, de hábitos de higiene e vacinas que, ao longo de décadas, comprovaram que a saúde pública se constrói em escala coletiva, por meio da prevenção. Mas, ainda que nunca se tenha falado tanto em saúde, continuamos doentes: taxas crescentes de depressão e ansiedade, consumo precoce de pornografia e dependência digital, e uma latente epidemia de solidão são algumas das marcas de nosso tempo.

É diante desse cenário que se destaca o trabalho do médico epidemiologista Miguel Ángel Martínez-González, catedrático de saúde pública das Universidades de Navarra e Harvard e vencedor do Prêmio Nacional de Pesquisa Científica Gregorio Marañón, concedido pelo Ministério da Ciência e Inovação do Governo da Espanha. Décadas de estudos o levaram a encontrar a peça faltante do intrincado quebra-cabeças da saúde pública contemporânea: famílias sólidas. Para Martínez-González, vínculos afetivos duradouros atuam como verdadeiros fatores de proteção, tão eficazes quanto vacinas para a saúde coletiva e individual.

Recém-lançada no Brasil, seu livro “Salmões, hormônios e telas” (Editora Quadrante) expõe seu argumento em fartas evidências científicas, abordando desde os riscos da hipersexualização, da pornografia e do vício em telas até da crise de autoridade parental. Nesta entrevista, explica por que acredita que fortalecer compromissos afetivos de longo prazo é a melhor forma de imunizar a sociedade contra algumas das mais severas doenças do presente.

Professor Miguel Ángel, o título do seu livro é bastante curioso, mas parte de uma premissa simples: vivemos em um tempo em que interesses comerciais e tendências culturais levam milhões de jovens em todo o mundo a tomar decisões pessoais que, além de suas más consequências individuais, tornam-se problemas de saúde pública. Nesse sentido, aqueles que escolhem nadar contra a corrente são os “salmões”. Quais são essas pressões e qual é seu impacto na vida familiar?

As pressões são o consumismo, o hedonismo e o materialismo. Há uma hipersexualização do ambiente que faz com que se confunda o amor com a mera genitalidade mais animal. A ideologia do consumo está presente nas redes sociais e na indústria do entretenimento e exerce uma forte pressão, especialmente sobre os adolescentes e, mais ainda, sobre os rapazes. A eles se inculca repetidamente o nefasto conceito de que as mulheres estão ali apenas para sua satisfação egoísta, para aproveitarem delas em um simples “esporte de contato” que busca gratificações prazerosas instantâneas. Elas são apresentadas como seres submissos, objetos de usar e descartar. A pressão é enorme para desvincular a sexualidade do amor verdadeiro, da família e dos filhos. Os interesses da indústria do controle da natalidade, que vende hormônios em larga escala, são gigantescos e se beneficiam dessa distorção. O mesmo ocorre com as multinacionais que exploram o corpo humano do princípio ao fim da vida, muito interessadas nessa distorção.

Como consequência, há uma crise da família, e mais de 50% das famílias acabam se desfazendo, com grave dano psicológico para os filhos. Isso acontece porque se despreza o valor do compromisso, da espera e do diálogo intelectual no namoro. Deu-se absoluta primazia ao que é meramente corporal, o quanto antes, sem vontade de permanência, sem conhecimento, sem compromisso firme e publicamente celebrado e, definitivamente, sem inteligência.

O senhor sustenta que as famílias sólidas previnem doenças sociais do mesmo modo que as vacinas previnem doenças físicas. Especialmente em um mundo pós-pandemia, trata-se de uma metáfora muito poderosa. Poderia desenvolvê-la com dados ou exemplos clínicos?

Assim como a medicina clínica cura o paciente enfermo, a medicina preventiva cura sociedades doentes. Há sociedades obesas, glutonas, fumantes, violentas, imprudentes ao volante, viciadas em pornografia e outras drogas, suicidas, deprimidas, etc. Cada uma dessas patologias sociais representa um fenômeno massivo, com contágio social, que também exige soluções massivas. Seus agentes “infecciosos” e seus “vetores” são os meios de comunicação, a indústria do entretenimento, a pressão dos pares ou a norma social estabelecida.

A epidemiologia nos mostra que os estilos de vida — alimentação, exercício, evitar drogas e condutas sexuais de risco, regras de trânsito, higiene — são opções livres, mas fortemente condicionadas por fatores estruturais: publicidade, pressões comerciais, modelos culturais. A saúde pública, assim como uma vacina, atua de maneira preventiva e coletiva: não se centra em uma única doença, mas em elevar os níveis de saúde positiva e proteger toda a sociedade. E as famílias sólidas, com vínculos firmes e saudáveis, são o núcleo mais eficaz dessa medicina preventiva.

O senhor trata a pornografia como um fator de risco. O que mostram os estudos sobre seu impacto na formação da identidade e no desenvolvimento afetivo dos adolescentes? E na relação entre os casais?

De fato, a pornografia é a nova droga que está desvirtuando e destruindo as relações afetivo-românticas e tem feito da mulher sua maior vítima. Não há dúvida de que o tremendo aumento de agressões sexuais e de condutas sexuais violentas é um incêndio que se alimenta, a cada dia, com a gasolina da exposição massiva à pornografia, à qual crianças e adolescentes têm acesso assim que recebem um smartphone. Ela é viciante. Mais de 20% dos conteúdos atuais da pornografia disponível na internet são extremamente violentos. É uma escola de violadores.

Os estudos mostram que, entre 14 e 15 anos, 66% dos adolescentes já tiveram contato com pornografia e, aos 17 anos, essa cifra alcança 79%. Esse consumo precoce altera o cérebro, reduz a espessura do córtex pré-frontal e impacta a capacidade intelectual, de modo semelhante ao álcool ou às drogas. A pornografia converte-se, assim, na “escola” onde aprendem sobre sexualidade, substituindo a educação afetiva real e distorcendo a intimidade nos relacionamentos de casal.

O acesso precoce à pornografia deveria ser considerado um problema de saúde pública? Que tipo de medidas poderiam ser tomadas nesse sentido?

É, sem nenhuma dúvida, um grave problema de saúde pública. Devem ser tomadas medidas estruturais por parte dos governos. Bastariam duas medidas. A primeira é impedir (de fábrica) o acesso à pornografia gratuita, de modo que só seja acessível mediante pagamento. E que qualquer corporação ou pessoa que disponibilize pornografia gratuita na rede seja severamente multada — com multas gigantescas, que não compensem financeiramente às corporações.

A segunda medida é que todo site que contenha pornografia deva obrigatoriamente usar a extensão **.xxx** e, se não a utilizar, os governos devem aplicar multas e fechá-lo. Essas duas medidas não negam a ninguém a possibilidade de escolha, mas impedirão que qualquer criança de 10 anos se depare com esse conteúdo e tenha acesso gratuito a ele. Todos os que vendem drogas sabem que precisam oferecê-las primeiro de graça. Seu lema é: “conquiste-os aos 13 anos e os terá como clientes para toda a vida”. Quando os governos não implementam essas medidas, tão necessárias, as famílias devem tomar a iniciativa e adotar fortes precauções.

Podemos afirmar que as telas são hoje a principal ameaça para os vínculos familiares? Que conselhos práticos daria aos pais que desejam proteger seus filhos do bombardeio digital sem cair na repressão nem no isolamento?

De fato, não são a única ameaça, mas sim a mais frequente. É preciso acabar com essa curiosa lenda urbana do pária social, do pobre garoto que, qual um mártir por ser privado do smartphone, acaba irremediavelmente isolado e rejeitado por seus semelhantes. Isso não é real. São as próprias crianças e adolescentes que demonstram saber explorar muito bem todo o proveito que podem tirar desse tipo de argumento falacioso de repressão e isolamento, que não se sustenta.

Até hoje não conheço nenhum estudo epidemiológico que indique que a ausência de telas para atividades de lazer conduza ao isolamento social ou a algum tipo de transtorno emocional. Se algum leitor o conhecer, que me envie. Em contrapartida, não pararam de ser publicados centenas de estudos sérios em epidemiologia que demonstram de maneira sólida o grave dano psiquiátrico (depressão, ansiedade, déficit de atenção, ideação suicida, anorexia e bulimia, automutilações, etc.) provocado por essas telas.

No meu novo livro, “12 soluções para superar os desafios das telas”, apresento orientações muito práticas: dar o exemplo, pois nenhum pai conseguirá convencer os filhos se ele mesmo estiver preso ao celular; pactuar normas claras e cumpri-las com coerência; criar zonas e momentos livres de dispositivos, como as refeições em família; estabelecer um toque de recolher digital com um local comum de “estacionamento de celulares”; e aplicar controles parentais e cancelamento de notificações para reduzir a exposição. São medidas simples, realistas e com eficácia comprovada para proteger os filhos sem cair na repressão nem no isolamento.

Vivemos uma crise de confiança social — entre instituições, entre as pessoas e até dentro da família. Qual é a relação entre essa desconfiança e o enfraquecimento dos laços familiares? Como reconstruir a confiança em tempos de polarização?

É isso mesmo. A saúde ótima requer o estabelecimento de vínculos de confiança. Os vínculos digitais são muito mais frágeis e, em grande parte, fictícios. As redes sociais são desenhadas para gerar polarização. No livro, ofereço muitos conselhos a mães e pais para reconstruir a confiança intrafamiliar e desenvolvo todo o tema dos estilos parentais que geram confiança.

A chave está em exercer uma autoridade moral (authoritative em inglês), que não é autoritarismo ditatorial, mas aquela que combina firmeza com afeto explícito, empatia, escuta e interesse. Não é incompatível ser compreensivo e atencioso e, ao mesmo tempo, ser exigente. Os estudos demonstram que os pais que adotam esse estilo facilitador oferecem a seus filhos segurança emocional e, paradoxalmente, mesmo quando o adolescente reage com rebeldia ou raiva, percebe essa exigência como uma barreira de proteção que o resguarda. É necessário aplicar o máximo de empatia e de compreensão, mas também o máximo de firmeza para estabelecer regras claras e cumpri-las.

O senhor tem dialogado com públicos ideologicamente muito distintos. Muitas pessoas veem a defesa da família como uma causa da direita ou religiosa. Como devolver esse tema à centralidade da saúde pública e da dignidade humana — algo que pertence a todos?

O livro “Salmões, hormônios e telas” não é de modo algum ideológico, não é político, nem conservador, nem de direita, nem de esquerda. É de divulgação científica. Foi escrito por um catedrático de saúde pública de Navarra e de Harvard, e cada afirmação que apresenta está sustentada por referências científicas de estudos sólidos em epidemiologia e saúde pública. Contém 450 notas de rodapé, quase todas fornecendo a evidência científica que respalda os conselhos apresentados. Aplicá-los favorecerá essa centralidade da saúde pública e da dignidade humana, beneficiando pessoas de todos os credos, de todo o espectro político e de todas as ideologias. Trata-se de uma defesa da saúde pública.

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