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"O sistema de saúde brasileiro não está preparado para a epidemia de solidão": entrevista com o médico psiquiatra Luiz Carlos Oliveira Júnior

"O sistema de saúde brasileiro não está preparado para a epidemia de solidão": entrevista com o médico psiquiatra Luiz Carlos Oliveira Júnior

por Maria Clara Vieira Rousseau

“É impossível ser feliz sozinho”, diz uma das canções mais populares do país. Mas este mesmo Brasil que canta as alegrias da vida compartilhada está cada vez mais solitário: quatro a cada dez brasileiros se sentem sós. É o que revela uma pesquisa exclusiva realizada pelo Family Talks em parceria com a consultoria Market Analysis, com base em entrevistas com mais de mil pessoas em todo o território nacional.

O levantamento mostra que 41,1% da população adulta relata solidão — um fenômeno que atinge mais as mulheres do que os homens, concentra-se com força nas classes C e D/E e desafia o estereótipo de que o problema é exclusivo da terceira idade: jovens entre 18 e 34 anos apresentam níveis de solidão semelhantes aos dos adultos. A pesquisa revela ainda que mães de baixa renda são especialmente afetadas e que a maioria dos brasileiros (61,1%) enxerga a solidão como resultado de fatores estruturais, e não de falhas individuais.

Em entrevista ao Family Talks, o psiquiatra Luiz Carlos Oliveira Júnior argumenta que a solidão deve ser tratada como um determinante de saúde tão sério quanto o tabagismo ou o sedentarismo, e que o Brasil precisa agir rápido para não repetir a crise que já atinge nações da Europa e da Ásia. A seguir, os principais trechos da conversa.

Fala-se muito da solidão como um sentimento, uma sensação ruim. De fato, ninguém gosta de se sentir sozinho. Do ponto de vista médico, quando a solidão passa a ser um problema de saúde?

Primeiro, é preciso fazer uma distinção importante. Com frequência, tratamos a solidão como um mero sentimento, mas, na verdade, há duas coisas que estão recebendo esse nome. A primeira é a solidão propriamente dita: a sensação de que tenho menos contato social do que gostaria. Não tem a ver necessariamente com o número de pessoas ao meu redor, mas com a percepção de que não tenho o apoio de que preciso, ou de que existe tensão nas relações. A segunda é o que chamamos de isolamento social, que é uma questão objetiva: a rede de contatos da pessoa é pequena, reduzida. Essas duas coisas são bem diferentes em seus efeitos, e nenhuma delas é apenas um “sentimento ruim”.

Há vários estudos mostrando que a solidão e o isolamento social, cada qual à sua maneira, são prejudiciais à saúde. A solidão aumenta o que chamamos de morbidade — eleva a chance de a pessoa desenvolver uma série de problemas de saúde. O isolamento social, por sua vez, aumenta objetivamente o risco de morte. Quem está isolado não tem quem lhe lembre de tomar remédios, quem o acompanhe a uma consulta médica, quem o ajude a cuidar de si. Já vi casos de pacientes que tomavam banho apenas porque alguém os lembrava ou porque iam encontrar outra pessoa. O isolamento social retira a rede de proteção que nos mantém vivos.

Já a pessoa que se sente sozinha — mesmo cercada de gente — apresenta diversas alterações fisiológicas indicativas de estresse intenso. Nosso cérebro experimenta a solidão como se fosse uma dor física, como se estivéssemos levando uma martelada no dedo. Essa solidão pode ser definida não como falta de relacionamentos, mas como sofrimento social. E esse sofrimento tem consequências muito concretas sobre o corpo.

Que consequências são essas? A solidão é comparável ao tabagismo, à má alimentação? A que podemos compará-la para dimensionar o problema?

Se compararmos a solidão com outros fatores de risco — alimentação inadequada, sedentarismo —, ela equivale ao hábito de fumar aproximadamente dez cigarros por dia. Nós, seres humanos, fomos desenhados para conviver em sociedade. A ausência de contato humano coloca o corpo numa situação de estresse crônico.

Na prática, pessoas que se sentem sós estão constantemente expostas aos mesmos efeitos que o estresse provoca: aumento de fatores ligados à inflamação, o que eleva o risco de doenças crônicas — doenças cardíacas, pressão alta, aterosclerose, infarto e derrame.

Além disso, a tensão excessiva nos relacionamentos — aqueles casos em que a pessoa não está propriamente isolada, mas sente que não pode contar com ninguém — está associada à menor prática de atividade física, à tendência a consumir alimentos ultraprocessados e à piora do sono. É um ciclo que se retroalimenta: o corpo inflamado e mal dormido fica mais vulnerável a doenças cardiovasculares, metabólicas e mentais, como depressão e ansiedade.

Qual é o impacto da solidão nas diferentes fases da vida?

Cada fase da vida tem necessidades específicas de contato social, e por isso a solidão deixa marcas diferentes em cada uma delas. Nosso corpo e nosso cérebro estão sempre interagindo com o ambiente, independentemente da idade. Como estamos em constante desenvolvimento, o estresse da solidão tem impacto ao longo de toda a vida — de maneira diferente em cada fase.

Na infância, precisamos de alguém que cuide de nós — e quando esse cuidado falta, há maior risco de transtornos mentais na adolescência e na vida adulta, como depressão e ansiedade. Há trabalhos mostrando que a privação de cuidado na infância pode elevar inclusive o risco de diabetes tipo 1 — uma doença autoimune em que o próprio corpo destrói as células que produzem insulina. 

Na adolescência, precisamos de alguém que nos oriente e nos prepare para a vida adulta; quando isso não acontece, há risco aumentado de uso de drogas, dependência química, depressão e suicídio. Na fase adulta jovem, estamos iniciando a carreira, construindo relacionamentos, tendo filhos — a maior parte das experiências inéditas acontece nesse período, que por isso mesmo é dos mais estressantes, e os transtornos mentais ganham importância, com maiores taxas de ansiedade e depressão. Na meia-idade, com a aproximação da aposentadoria, é preciso redescobrir o próprio lugar no mundo. E quando envelhecemos, a rede de contatos vai encolhendo naturalmente — amigos morrem, as situações que levam a encontrar pessoas diminuem — e o isolamento social se torna o risco principal, agravando o declínio da saúde e aumentando a chance de morte.

Precisamos entender que gente precisa de gente para ser gente. A privação disso é quase como privação de comida. E quanto mais cedo acontece, mais graves são as consequências.

Um dado importante da nossa pesquisa é que, de modo geral, pessoas com filhos tendem a se sentir menos sozinhas. Há, porém, um recorte significativo: as mães se sentem mais sozinhas que os pais, e as de baixa renda estão em situação ainda pior. Como o senhor explica essa solidão “acompanhada”?

Ela não é exatamente uma solidão acompanhada. A pessoa tem um filho, mas precisa contar com alguém da mesma geração, alguém com quem possa trocar. É a solidão de quem cuida de outra pessoa. Acontece, por exemplo, com o cuidador de um paciente com Alzheimer: pouca gente compreende o quão solitário é cuidar de alguém sozinho, sem paridade, sem ter com quem conversar de igual para igual.

As pesquisas mostram com clareza o vínculo entre solidão e desigualdade social, discriminação por raça, por religião. Dói profundamente não pertencer por alguma característica que não está sob nosso controle. Quando falamos de desigualdade social, o quadro se agrava, porque ela impõe limitações que nos impedem de circular em muitos espaços e de ter acesso a situações em que seria possível encontrar pessoas. E há ainda a questão do tempo: se alguém precisa pegar duas horas de ônibus para chegar ao trabalho, passa o dia num ambiente hostil e volta para casa à noite exaurido, que hora vai ter para cultivar uma amizade? A desigualdade agrava todos os outros determinantes de saúde. Que hora essa pessoa vai cuidar dos seus vínculos, se está lutando para pagar as contas básicas?

A pesquisa mostrou que os jovens se sentem mais sozinhos que os idosos. A partir dos 45 anos, a sensação de solidão tende a diminuir. Isso contraria o estereótipo de que os idosos são os solitários e os jovens vivem rodeados de amigos.

É curioso que a própria crença é o que faz esse paradoxo acontecer. O jovem sente a solidão com mais intensidade porque existe uma expectativa maior de que tenha muitos amigos. É uma fome que não está sendo saciada. A imaturidade da adolescência leva a imaginar que todo amigo é igual e que toda relação deveria suprir todas as necessidades. O adolescente ainda está aprendendo que o amigo com quem sai para se divertir nem sempre é aquele que lhe dará um conselho numa situação grave, e vice-versa.

À medida que amadurecemos, vamos compreendendo que nem todo relacionamento é igual e que o número de amigos não é tão grande assim. O idoso já internalizou isso, reduz a expectativa — e, embora esteja isolado socialmente, não sente a mesma fome que o adolescente. Temos, então, o adolescente com fome imensa no meio de um caldeirão de possibilidades, e o idoso sozinho sem sentir fome.

E como a tecnologia entra nessa equação?

É bastante evidente que as redes sociais podem trazer prejuízo para o adolescente e intensificam problemas naqueles que já tinham dificuldade de relacionamento na vida real. As pesquisas mostram que pessoas com transtorno de ansiedade, depressão ou — e esse é um dado muito interessante — pouca clareza de propósito de vida são as mais vulneráveis ao uso problemático das redes. Elas tendem a intensificar o que já sentiam. Há trabalhos mostrando que o propósito de vida funciona como uma blindagem: quando a pessoa sabe o que quer da vida, tem uma proteção.

Por outro lado, há estudos que mostraram que as redes sociais reduziram a solidão de idosos, sobretudo durante a pandemia, porque lhes permitiram manter contato com pessoas que antes não conseguiam alcançar por dificuldade de locomoção. Ou seja, não se pode tratar a tecnologia como vilã absoluta. É preciso aprender a conviver de forma saudável com ela.

O sistema de saúde brasileiro, tanto o SUS quanto o privado, está preparado para lidar com a epidemia de solidão?

Definitivamente não. O problema sequer está posto diante do sistema de saúde como deveria. Ainda temos um perfil de problemas de país em desenvolvimento — pessoas morrendo de infecções, subnutrição, falta de saneamento, tuberculose, hanseníase — e, ao mesmo tempo, os problemas dos países desenvolvidos, que são as doenças crônicas. Vivemos dois cenários que exigem abordagens muito diferentes. Tanto o sistema público quanto o privado não se prepararam para lidar com as doenças crônicas e com algumas de suas causas, que são os problemas de estilo de vida. Não temos diretrizes para enfrentar um problema como esse — que exigiria criar grupos de apoio e de conversa, ensinar os profissionais de saúde a fazer prescrição social, mapear recursos comunitários para os quais os pacientes possam ser encaminhados. Nada disso existe ainda como diretriz.

Sabemos que dieta inadequada e sedentarismo aumentam o risco de doença crônica — isso pelo menos é abordado durante a formação médica. Mas o tema da solidão não é discutido como fator de risco, e não há ensino sistemático na graduação de medicina. Sou professor universitário há mais de dez anos, e nos currículos médicos não existe discussão sobre solidão como fator de risco, nem sobre como o médico pode intervir.

Outros países já tratam essa questão de forma diferente. Como a medicina do estilo de vida aborda a solidão, e o que podemos aprender com a experiência internacional?

A medicina do estilo de vida trata de todos os comportamentos que têm impacto sobre a saúde, e a conexão social é um dos temas mais importantes. Além de associar a ausência de conexão social a hábitos de saúde — como já mencionamos, a prática de atividade física, a alimentação e o sono adequados —, essa área também examina as chamadas exposições tóxicas: o uso prejudicial de redes sociais, jogos de aposta online — que no Brasil movimentam bilhões de reais por mês —, pornografia digital, entre outras. Discutimos com o paciente todas as formas de comportamento que possam impactar sua saúde, física e mental.

Em países que enfrentam o envelhecimento populacional há várias décadas — como Inglaterra, Alemanha e Japão —, esse olhar já se traduziu em política pública. A Inglaterra, por exemplo, designou em 2018 um secretário de Estado para a Solidão, dedicado especificamente ao problema. A prescrição social se tornou rotina: os médicos perguntam como o paciente se alimenta, se pratica exercício, se se sente sozinho, quantas pessoas encontra por dia, e o encaminham para atividades que ajudem a reduzir esse risco. Aqui, não temos nada disso.

No Family Talks, defendemos que o enfrentamento da solidão passa necessariamente por políticas públicas voltadas ao fortalecimento das famílias, criando condições concretas para que as pessoas possam estar juntas e se sentir cuidadas. Que papel o senhor atribui às políticas públicas nesse cenário?

O comportamento, para acontecer, não depende apenas de motivação — precisa de oportunidade. Não adianta só querer; tem que ser possível. E vários desses problemas existem justamente porque a nossa sociedade se organizou de um modo que não permite que essas necessidades sejam atendidas. Estamos pagando o preço pelo desenho da nossa sociedade. 

E aí volto ao ponto de vocês: fortalecer a família e as redes de cuidado é fortalecer a possibilidade de as pessoas estarem juntas. Só políticas públicas que influenciem e transformem essa estrutura vão criar essa oportunidade. Precisamos aproveitar que o Brasil ainda é um país relativamente jovem para nos preparar agora.

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